Mesmo sem ter entregue a tese resolvi chutar o balde e fazer uma viagem com um grupo de amigas ! Foi curtinho, só um findi, mas valeu a pena ter me desconectado um pouco da escrita. O destino: Budapeste, capital da Hungria, uma das principais cidades termais da Europa.
2 horas de avião separam Paris de Budapeste. Já no avião tivemos um primeiro contato com o húngaro. Me lembrei do livro homônimo do Chico Buarque, em que ele diz algo como, que uma frase numa língua que não conhecemos é como um fluxo de agua, que não da pra separar, algo assim. É realmente impossível saber onde termina uma palavra e começa a outra.
Chegamos num dia nublado e frio. Do aeroporto pegamos um trem e chegamos na estação Nyugati (do oeste), que foi construída pela companhia de Gustave Eiffel (sim, é o mesmo da torre). O albergue,
Tiger Tims Place, dirigido por um Irlandês muito simpático, é um dos mais acolhedores em que já fiquei! Tim vem receber pessoalmente seus hospedes, da todas as dicas, e ainda organiza uma saída à noite com todo o pessoal do albergue pra ir pra balada.
Budapeste era antigamente duas cidades: Buda e Peste, separadas pelo rio Danúbio (é o mesmo que passa por Viena, e que corta ainda diversos países antes de desembocar no Mar Negro) e que foram unificadas durante o império austro-húngaro. Mas ainda hoje se faz referencia às duas cidades.
No primeiro dia passeamos por Peste. Primeiro ponto: o Mercado Público. Ir no Mercado de uma cidade da uma impressão quase sempre inequívoca dos costumes de seus habitantes. Foi no mercado que descobrimos por exemplo que a culinária local é fortemente baseada no uso de paprika, que é como eles chamam pimentão. Pimentão é uma das raras coisas que eu simplesmente me recuso comer. Não suporto o cheiro. E me dá azia. E o mercado todo cheirava (pra não usar um verbo pior) à paprika....
Ai resolvemos almoçar no mercado. Descobrimos uns buffets de comida local, paga por porção. No cardápio, goulash de porco ou gado, massa feita de milho, e muitas outros tipos de comida feitas para "encher a barriga". Perfeito para o frio. Não preciso dizer que tudo vinha temperado com paprika. Eles serviam até paprika pura e em conserva. Me armei de coragem e provei o pimentão que eles serviam, uma variedade verda-clarinha, quase branca. Eh engraçado, porque ele tem cheiro de pimentão, mas o gosto é meio diferente. Nao sei descrever. E tipo café, que tem um cheiro super bom, mas o gosto nem tanto (pra quem nao gosta de café, obvio). Bom, no caso, o gosto do paprika branco era melhor que seu cheiro.
A refeição foi super barata: 850 forints, o que equivale à 3 euros e 50.
Tentamos aproveitar bem o dia até as 4h30 da tarde, quando começava a escurecer. É normal, a Hungria esta no mesmo fuso horário de Paris, mas muito mais à leste, ai o sol se põe bem mais cedo.
No fim do dia fomos tomar um chocolate quente no célebre café Gerbeaud (que se parecia muito com o café Sacher de Vienna). Foi no menu do Gerbeaud que aprendemos que a palavra "quente" em Húngaro é: "FORRO" ! como a dança brasileira... ;) A pronuncia é praticamente a mesma ! Esse aprendizado iria nos salvar o dia mais além...
Nos éramos um grupo de 4 brasileiras e 2 francesas. Quando os locais percebiam que éramos turistas, eles perguntavam, primeiro num inglês meio fraco, de onde vínhamos. Quando dizíamos que vínhamos de Paris, eles falavam em francês! E quando descobriam que tinha brasileiras no grupo, diziam: "Brasil, Portuguese!" Como se quisessem mostrar que sabiam que no Brasil a gente fala português ! Era muito engraçado, pois é bem comum pensarem que no Brasil falamos espanhol. E eles faziam questão de mostrar que sabiam qual língua falamos.
No domingo fez um sol maravilhoso! Saímos em direção à Buda, do outro lado do Danúbio. Atravessamos a ponte Marguerite, que toca o sul da ilha homônima. Os budapestinos (como dizer aquele que nasce em Budapeste?) fazendo seu jogging de domingo. Que vontade...
Acho que visitar uma cidade durante o outono é muito mais prazeroso do que ir durante o verão. Tem menos hordas de turistas, o friozinho incentiva andar à pé, e as cores do outono são magníficas! Fomos à pé até a Igreja Matthias, dentro da antiga citadela medieval de Buda. A vista da cidade la de cima é linda! Nessa citadela também fica o Castelo de Buda.
Pelas 15h30 descemos em direção à Peste novamente, atravessando a Chains Bridge (ponte Széchenyi), e tendo uma linda vista do Parlamento de Buda do outro lado do rio, colorido pela luz do sol que ja estava se pondo. O parlamento lembra muito o de Londres, também construído à beira do rio.
Cruzamos Peste à pé, pela avenida Andràssy, conhecida como a Champs Elysee de Budapeste, por suas lojas caresimas. Só podem ser turistas que compram nessas lojas, pois pelo que a gente entendeu, a situacao financeira dos Húngaros nao é das melhores.
Chegamos até o parque da cidade, no meio do qual ficam localizadas as maiores termas medicinais da Europa: as termas Széchenyi. Já era escuro, mas as termas ficam abertas até 22h. A entrada custava 3100 forints (uns 12 euros). Essa terma tinha piscinas internas e externas. Fazia super frio, a gente teve que correr do predio até a piscina, mas depois de entrar na agua a uns 35 graus, é so felicidade! As piscinas são bonitas, o clima é legal, tem até um tabuleiro de xadrez pro pessoal jogar dentro da piscina quente.
Depois de uns 20 minutos na água quente a gente vai se sentindo mole, mole... E recomendado sair e tomar uma ducha fria, pra reativar a circulação. A gente fez o tour de piscinas, externas e internas. É tudo liberado, todo mundo entra sem exame médico... mas azar, sou da teoria de que é bom colocar o corpo em contato com umas bactérias estrangeiras de vez em quando, pra ele aprender a se defender sozinho. No final ninguém teve micose, que eu saiba.
Só pena que a segurança do local deixou a desejar. Saindo, com uma amiga, do toilete feminino, o qual era de frente ao toilete masculino, nos deparamos com um cara em pleno "trabalho braçal" num canto da saída. O cara estava posicionado de forma que todas mulheres saindo do toilete pudessem admirar seu instrumento. A gente saiu de la, cada uma pensando "Será que eu vi certo?". Como a visão de uma confirmava com a da outra a gente explodiu rindo.... Deveríamos ter chamado um segurança, mas como explicar a situação em húngaro? Fazendo mímica? Eu é que não.... ;)
Fora essa exceção, as termas são muito familia. Acho que ir pras termas em Budapeste deve ser como ir pra Redenção pra gente em POA (tem até os tarados, hehe).
A gente jantou num restaurante chamado ... Paprika :) Muito bom, até porque, escolhi um prato SEM paprika. Provamos também o célebre foie gras húngaro, que se come de maneira diferente do Francês: eles passam a gordura amarela pura no pão, alias, veio mais gordura do que foie. Então acho que nesse ponto eu prefiro a versão francesa....
No outro dia, saímos de manha bem cedo pra pegar o trem pra ir pro aeroporto. Dentro do trem resolvemos tomar um chá e comer alguma coisa. A senhora que atendia no vagão-bar simplesmente não entendia o que queríamos: "Ice Tea ?" Ela apontava pras latinhas de Ice Tea. "No, HOT tea !!" E fazíamos de conta que estávamos nos abanando, com calor, pra ela entender que queríamos chá quente, normal !, ora. Nada, ela não entendia "hot".
Até que a gente lembrou do que aprendeu no café Gerbeaud:
"FORRO !!! FORRO tea !"